1.4 Língua portuguesa e tecnologias: letramento digital como prevenção a golpes
Como já declarado anteriormente, as novas tecnologias, principalmente as digitais, instauraram, também, novas formas de se relacionar com a leitura e a escrita, mas não só, novos modos e comportamentos em relação a textos socialmente veiculados em diferentes ambientes digitais. Nesse contexto, conforme Coscarelli,
O letramento digital envolve as habilidades do sujeito de lidar com textos digitais que normalmente fazem parte de uma rede hipertextual e exploram diversas linguagens, ou seja, são multimodais. Essa rede hipertextual é composta por um conjunto de textos não lineares, que oferecem links ou elos para outros textos, que podem ser ou conter imagens, gráficos, vídeos, animações, sons (COSCARELLI, 2009, p. 554).
De certo modo, é possível considerar que o letramento digital integra os multiletramentos (Rojo, 2012).
Os ambientes virtuais propiciam, ao mesmo tempo, a construção de textos multimodais, isto é, com diferentes modos e recursos de linguagem.
Além disso, possibilitam uma profusão de textos sobre determinados assuntos ou temas, de diferentes gêneros textuais, quase de forma imediata aos acontecimentos sociais ou às intenções do(s) autor(es). Isso requer, atualmente, de todos nós, comportamentos e modos de agir para o consumo desses textos, de maneira que consigamos, por um lado, lê-los ou escrevê-los adequadamente a seus usos sociais e, concomitantemente, por outro, agir prudentemente diante dos diferentes discursos por eles veiculados, principalmente por conta das fake news e, também, das inteligências artificiais (IA), que tornam cada vez mais difícil identificar o que é real ou fabricado.
É nesse contexto que vivemos. Somos mediados e perpassados por textos produzidos e veiculados digitalmente que, cada vez mais, se tornam críveis, o que demanda de nós, continuamente, certa desconfiança e a checagem de notícias, vídeos, fotos... Tudo isso faz parte do letramento digital. Por isso, em Língua Portuguesa, sugerimos que o educador trabalhe pedagogicamente com os educandos da EJA sobre crimes cibernéticos comuns não só no Brasil, mas também no mundo.
Para iniciar a discussão, o educador pode apresentar a seguinte reportagem: “Praticamente 1 em cada 4 brasileiros perdeu dinheiro em crimes cibernéticos, segundo o DataSenado” (Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MZRiNAy8Rpg&t=83s A partir dela, é possível discutir com os educandos: Vocês tomam algum cuidado ao usar sites da internet? Já ouviram falar ou conhecem alguém que sofreu algum golpe digital? É possível se precaver para evitar sofrer algum golpe virtual? Será que os mais velhos são mais vulneráveis a sofrer algum tipo de golpe cibernético?
A partir das discussões, o educador pode conduzir as reflexões de modo que os educandos percebam que o uso não só da internet, mas de diferentes aplicativos disponíveis em celulares, às vezes considerados como inofensivos pelas pessoas, pode servir para praticar algum crime digital. Por isso, deve-se ter muito cuidado no compartilhamento, por exemplo, de informações pessoais e, principalmente, de dados bancários ou na autorização para instalação de algum aplicativo ou função nos aparelhos de comunicação digital, isto é, celulares, tabletes, computadores, entre outros.
Esse cuidado pode precaver ou evitar possíveis golpes, mas também é preciso considerar que, por conta de outros cibercrimes, muito provavelmente, nossos dados pessoais já tenham sido compartilhados inadvertidamente, o que nos expõe como potenciais vítimas virtuais. Por isso, é preciso redobrar a atenção no uso e na autorização de acesso a dados por diferentes aplicativos.
Por fim, é relevante discutir que, diferentemente do que muitas pessoas acreditam, os jovens entre 16 e 30 anos são os que mais sofrem algum tipo de crime digital. Para essa discussão, é relevante apresentar o seguinte gráfico.
Figura 3 – Faixa etária da população que sofreu algum crime digital.
Fonte: Instituto de Pesquisa DataSenado (2025).
A partir da leitura do gráfico, o educador pode questionar os educandos: Por que será que os mais jovens sofrem mais golpes digitais? Uma das possíveis respostas está no fato de que a faixa de pessoas conectadas diariamente é maior entre pessoas de 16 a 49 anos e menor entre pessoas maiores de 50 anos (Brasil, 2025). O uso contínuo da internet pode ser uma das explicações possíveis.
Também é possível aproveitar essa temática para discutir como, muitas vezes, são produzidos os efeitos de sentido pelos textos envolvidos nos golpes digitais. Trata-se de textos que apresentam elementos ou diagramação gráfica idênticos aos originais e a mesma linguagem, com sentenças ou sequências textuais também idênticas. Pequenas mudanças são quase imperceptíveis se não forem observadas com tempo e atenção. Isso gera o sentido de veracidade do texto lido e, por conseguinte, afasta a desconfiança do leitor.
Após essa discussão, sugerimos que o educador realize a seguinte atividade com os educandos, disponibilizando alguns materiais, como os seguintes:
Materiais da atividade – cards para análise de boletos e lojas virtuais
O educador deve solicitar que os educandos, em duplas ou pequenos grupos, analisem primeiro os cards de 1 a 6 e indiquem quais telas de confirmação são, de fato, coerentes com os respectivos boletos e, assim, poderiam autorizar os pagamentos. Nesse momento, é importante ajudá-los a perceber os dados a serem conferidos, que precisam ser os mesmos presentes no boleto. Depois, no caso dos cards de 7 a 10, de sites de lojas virtuais, devem analisar as reclamações disponíveis e indicar se é interessante ou não realizar as compras.
Para finalizar, o educador deve perguntar o que os educandos aprenderam e como essa atividade pode ajudá-los a evitar algum golpe virtual. Na lousa, também é possível elaborar um passo a passo, de forma a registrar os conhecimentos desenvolvidos para evitar alguns crimes cibernéticos, indicando, se necessário, os seguintes modos e comportamentos:
1
Observe o endereço do site (URL)
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Sites seguros começam com "https://" (o "s" indica conexão criptografada). Desconfie de endereços com erros de digitação, letras trocadas ou domínios estranhos (como ".xyz" ou ".top" em vez de ".com.br").
2
Procure informações da empresa
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Lojas legítimas exibem CNPJ, endereço físico, telefone e canais de atendimento. Essas informações costumam estar no rodapé do site ou na seção "Quem Somos". Se não encontrar nada, é sinal de alerta.
3
Pesquise a reputação
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Busque o nome da loja no Reclame Aqui e veja as avaliações de outros consumidores. Uma pesquisa rápida no Google com o nome da empresa + "golpe" ou "fraude" também ajuda a identificar problemas.
4
Desconfie de preços muito baixos
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Ofertas com descontos exagerados (70%, 80%, 90% abaixo do mercado) costumam ser iscas. Compare o preço em sites confiáveis como Zoom, Buscapé ou Google Shopping.
5
Verifique a política de privacidade
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Sites sérios explicam como coletam e usam os dados dos clientes. Se o site não tiver essa informação ou o texto parecer genérico demais, desconfie.
6
Prefira formas de pagamento com proteção
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Cartão de crédito oferece possibilidade de contestação em caso de fraude. Evite sites que aceitam apenas Pix ou transferência bancária.
(COMO evitar..., 2026, s.p.).
Para estudantes em fase de alfabetização, sugerimos o trabalho de escrita de palavras a partir de um mesmo radical, como, por exemplo:
Essa atividade, conquanto pareça simples, é muito produtiva, pois ajuda os educandos a perceber a relação fonográfica envolvida na escrita, por conta, principalmente, da manutenção dos radicais. Nesse sentido, o educador pode, previamente, por exemplo, escrever três palavras de mesmo radical e solicitar que os educandos encontrem a semelhança na escrita e na oralidade dessas palavras. Pode também indicar uma palavra e solicitar que eles, primeiro, digam quais palavras podem ser criadas a partir dela e, depois, escrevê-las.
Para educandos já alfabetizados, indicamos o trabalho com os tipos de entonação oracional (Cunha e Cintra, 2007) e sua associação aos respectivos sinais de pontuação, a partir da reflexão sobre os efeitos de sentido gerados. Para isso, o educador deve apresentar o seguinte texto:
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A partir dele, o educador deve solicitar que os educandos o leiam com a entonação de uma afirmação, interrogação e exclamação.
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Para saber sobre Entoação Oracional, consulte Cunha e Cintra, 2007).
Para ajudá-los, pode-se explicar que as afirmações pertencem ao grupo de frases declarativas, que podem ser afirmativas ou negativas e têm como característica principal a apresentação de informações, fatos ou acontecimentos ou, ainda, trazem uma ordem, um pedido ou um conselho. As interrogações geralmente indicam perguntas ou dúvidas. Por fim, as exclamações expressam surpresa, emoções, sentidos ou ênfase na declaração, reforçando, muitas vezes, uma ordem ou um pedido.
Após a leitura, conforme as entonações, o educador deve indicar a pontuação correspondente a cada uma delas:
Tipo de frase/oração
Pontuação
Declaração afirmativa ou negativa
Ponto final (.)
Interrogação
Ponto de interrogação (?)
Exclamação
Ponto de exclamação (!)
Sugerimos que, durante a leitura de textos, o educador chame a atenção dos educandos para esses pontos e para como eles constroem a entonação, bem como afetam a produção de sentidos das orações. Também é importante ajudar os estudantes a empregá-los adequadamente aos significados que pretendem produzir em seus próprios textos. Por isso, o uso desses pontos deve ser constantemente incentivado, de modo reflexivo, isto é, fazendo com que os educandos pensem sobre a entonação das sentenças construídas ou lidas e sobre como elas afetam a produção de sentidos.