2.3 Estudantes em processo de alfabetização e o ponto de interrogação, seus usos e efeitos

O ponto de interrogação, junto da vírgula e do ponto, é um dos sinais de pontuação mais comuns em textos de diferentes gêneros textuais. Geralmente, no processo de ensino e aprendizagem, principalmente de estudantes em fase de alfabetização, como o foco é o domínio do Sistema de Escrita Alfabética, a pontuação não costuma ser foco de atenção no ensino, sendo, por vezes, apropriada de forma tácita pelos estudantes.

Diferentemente da vírgula e do ponto, que possuem regras de uso intimamente relacionadas à construção sintática, o ponto de interrogação está mais ligado à indicação de que o enunciado é uma pergunta ou uma dúvida. Na língua portuguesa, ele aparece somente ao final do enunciado que indica o questionamento, mas afeta toda a entoação ou entonação do período, desde seu início. Por isso, às vezes, quando não identificamos que o trecho lido oralmente indica uma pergunta, ao visualizarmos o ponto de interrogação, se não retomarmos, do início, a leitura do enunciado com a devida entoação, a leitura oral fica estranha, principalmente a quem está ouvindo. Assim, é relevante que se ensine aos estudantes a forma gráfica desse sinal e como ele afeta a leitura oral e, também, a produção de sentidos do enunciado.

Desse modo, sugerimos que o educador, depois da leitura e reflexão sobre as canções, trabalhe, por exemplo, com os refrãos de cada uma delas:

Quadro 2 – Refrãos.

Ai, que saudade da Amélia!

Amélia, não tinha a menor vaidade.

Amélia é que era mulher de verdade!

Cachorrinho

Vem aqui, que agora eu tô mandando!

Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá chamando!

Fonte: Elaborado pelos autores.

Inicialmente, o educador deve ler oralmente cada trecho com a devida entoação. No caso, o primeiro enunciado, da primeira canção, é uma afirmação. Logo a leitura oral não vai apresentar muita oscilação de entoação, permanecendo, de certa forma, linear: Amélia, não tinha a menor vaidade. Já o segundo enunciado da mesma canção e os outros dois, da outra, são exclamativos, ou seja, expressam emoções por meio da ênfase em certas palavras, geralmente iniciais, ou palavras-chave: Amélia é que era mulher de verdade! // Vem aqui, que agora eu tô mandando! / Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá mandando! Geralmente há uma elevação de altura na entoação dessas palavras grifadas, demarcando a ênfase, que, posteriormente, vai decaindo até o fim da sentença.

Durante a leitura oral, o educador deve solicitar que os estudantes prestem atenção às entoações de cada enunciado, para que depois comparem com a entoação do enunciado de interrogação:

Quadro 3 – Refrãos com interrogação.

Ai, que saudade da Amélia!

Amélia, não tinha a menor vaidade?

Amélia é que era mulher de verdade?

Cachorrinho

Vem aqui, que agora eu tô mandando?

Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá chamando?

Fonte: Elaborado pelos autores.

A partir da modificação do sinal de pontuação dos enunciados, que deve ser explicitado aos estudantes, mostrando-o “?”, o educador deve ler oralmente cada uma delas, que terá, basicamente, uma entoação enfática por meio da modificação da altura inicial, geralmente, na última palavra: Amélia, não tinha a menor vaidade? / Amélia é que era mulher de verdade? // Vem aqui, que agora eu tô mandando? / Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá mandando?

Se possível, para exemplificar como ocorre a mudança da entoação, o educador pode ler oralmente o enunciado uma vez como uma afirmação e, na sequência, como uma interrogação. Valendo-se disso, pode perguntar qual delas indica uma interrogação e, na escrita, como ela será marcada pelo ponto correspondente (?). Assim, haverá o ensino do uso do ponto de interrogação para demarcar perguntas ou dúvidas na escrita.

Educador(a), essa estratégia também pode ser usada para o ensino do sinal de interrogação!

Contudo, é oportuno refletir com os estudantes como a interrogação gera sentidos diferentes, conforme o contexto e o enunciado. A partir dos enunciados, o educador pode perguntar se eles entendem como uma dúvida, isto é, uma incerteza ou indecisão, ou uma pergunta, ou seja, a procura por uma resposta, confirmação ou não de uma informação, e que expliquem o porquê de suas respostas. De modo geral, as interrogações do primeiro texto (Amélia, não tinha a menor vaidade? / Amélia é que era mulher de verdade?) parecem indicar mais perguntas, enquanto as do segundo (Vem aqui, que agora eu tô mandando? / Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá mandando?), dúvidas. É relevante frisar essa distinção quanto aos efeitos de sentido gerado por esse sinal de pontuação em textos.