2.5 As potencialidades das tecnologias na promoção de cultura
Nos textos anteriores, enfatizamos a importância e a necessidade de conhecer e nos apropriar das Tecnologias da Informação e Comunicação – TICs, como contributos importantes a serem refletidos, discutidos e utilizados em turmas da Educação de Jovens e Adultos – EJA, bem como de conhecer suas potencialidades para a promoção dos direitos humanos, da democracia, da arte e cultura, da saúde, da administração financeira, do trabalho, entre outros.
Nessa direção, apresentamos possibilidades pedagógicas que impulsionem o uso de recursos tecnológicos em turmas de EJA e incentivem a reflexão sobre a cultura de paz a partir das potencialidades das TICs para o desenvolvimento e a consolidação da Educação para a Paz. Na Educação Matemática e no ensino de Língua Portuguesa, vimos sugestões de propostas pedagógicas para serem trabalhadas em turmas de EJA, que sinalizam o uso de recursos tecnológicos para a promoção da cultura de paz, a exemplo de vídeos, noticiários, pinturas e músicas.
Não se pode negar que as TICs oportunizam, por meio da comunicação e da digitalização em rede, a captação, a transmissão e a distribuição de informações. A interatividade, a competência comunicativa e as comunidades em rede abrem espaço para a ocorrência de um debate universal sobre a urgência de temas ligados à cultura de paz e à crítica da cultura de violência. Nessa direção, a educação é um caminho fundamental para o desenvolvimento de uma cultura de paz.
A Declaração e Plano de Ação Integrado sobre a Educação para a Paz, os Direitos Humanos e a Democracia, dentre outros aspectos, enfatizam:
A influência dos meios de comunicação na socialização das crianças e dos jovens está sendo reconhecida de forma crescente. É, portanto, essencial capacitar professores e preparar estudantes para a análise crítica e o uso dos meios de comunicação e desenvolver suas competências para aproveitar os meios de comunicação para escolha seletiva de programas. Por outro lado, os meios de comunicação devem ser instados a promover os valores da paz, o respeito pelos direitos humanos, pela democracia e pela tolerância, em particular evitando programas e outros produtos que incitem ódio, violência, crueldade e desrespeito à dignidade humana. (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, 1995, p.15).
Vale salientar que a humanidade não surgiu com a noção de paz; ela foi construída coletivamente, através de diálogos intensos, conflituosos e de acordos consensuais que foram registrados através de documentos com recomendações sobre o assunto.
Educador(a), o texto “Manifesto 2000: por uma cultura de paz e não violência” é um instrumento de reflexão que apela à participação individual e coletiva em direção a uma cultura de paz. Sugerimos a leitura e reflexão com os estudantes da EJA sobre os princípios do Manifesto 2000 e, na sequência, em agrupamentos produtivos, a escrita de um texto coletivo a partir da escolha de um dos princípios escolhidos e explorados por eles.
Educador(a), a partir dos princípios apresentados no Manifesto 2000, incentive os estudantes da EJA, com o uso do celular, a gravarem vídeos curtos em que toda a turma participe expressando suas ideias e compreensões sobre um dos princípios que escolherem. Ao final, reproduza os vídeos para que ouçam, vejam e explorem as ideias apresentadas e, coletivamente, discutam a respeito.
Vivemos um período de transição acelerada e de elevação dos discursos e das práticas de ódio étnico e racial, de discriminação, guerra e violência extrema em todas as suas formas e manifestações, em todo o mundo. Urge, portanto, reconhecer que os “outros” são nossos pares, iguais a nós, não inferiores nem inimigos. É preciso assegurarmos as liberdades, os direitos humanos, o desenvolvimento social e econômico equitativo e, assim, contribuirmos para a construção de uma cultura de paz.
Ser significa ser para o outro e, através dele, para si. O homem não tem um território interior soberano, está todo e sempre na fronteira, olhando para dentro de si ele olha o outro nos olhos ou com os olhos do outro. (Bakhtin, 2010, p. 323).
Educadores é importante pensarmos sobre “Quem sou eu para o outro e o outro para mim”? “Como os discursos nas mídias impressas e digitais contribuem para o desenvolvimento de uma Cultura de Paz e da não violência”? Como as TICs podem contribuir para o bem comum das pessoas?
As ferramentas tecnológicas devem ser colocadas a serviço da educação para a paz, ou seja, em espaços educacionais formais e não formais em que outros povos e outras culturas sejam respeitados em sua identidade e integralidade, e as tecnologias constituam elementos importantes para a construção de novas relações e interações sociais.
Educador(a), as redes sociais são espaços em que as relações humanas e as identidades têm sido construídas a partir do compartilhamento de ideias, dados e opiniões diversas sobre diversos assuntos. Verifique com os estudantes se utilizam redes sociais e quais utilizam, se participam de alguma comunidade digital e de quais participam. Feito o levantamento de informações, em agrupamentos produtivos, estimule e oriente os estudantes a identificarem, nas redes sociais, comunidades que tratam da cultura de paz. Ao encontrá-las, oriente-os a observarem as imagens, palavras, músicas, links e emojis utilizados nessas comunidades, para que analisem e discutam a respeito. Na sequência, proponha, coletivamente, uma roda de conversa com toda a turma sobre as informações e conhecimentos adquiridos na busca efetivada.
As redes sociais podem ser utilizadas na escola e no espaço de sala de aula, em turmas de EJA, com o propósito de colaborar para construção e difusão de conhecimento; além de dinamizar as metodologias e os assuntos didáticos.
Educador(a), ainda com o uso das redes sociais, você tem a oportunidade de criar uma comunidade na perspectiva da cultura de paz, estimular e orientar os estudantes para que, coletiva e colaborativamente, participem da criação e alimentem o ambiente digital com fotos, vídeos, frases, poesias, imagens, emojis, músicas, entre outros recursos que desejarem.
Dentre as redes sociais, o Instagram tem como foco principal o compartilhamento de imagens, que podem ser postadas com uma variedade de filtros, e a publicação de vídeos curtos nos stories, que ficam visíveis por 24 horas e podem ser visualizados por pessoas em todo o mundo. Sobre esse aspecto, Barbosa menciona:
O Instagram pode representar uma ferramenta significativa como apoio didático para o trabalho com línguas, principalmente quando se trata da aprendizagem de uma segunda língua. A sua potencialidade é observada por se tratar de uma mídia social que cria oportunidades para a publicação e gestão de textos multissemióticos, que podem envolver atividades de leitura (entendida para além da leitura da palavra escrita, mas também dos textos criados em outras semioses) e da produção textual por meio de texto verbal e de vídeos curtos, além de interação, colaboração, trocas, partilhas e aprendizagem em comum. (Barbosa et al, 2017, p. 24).
Vale salientar que as redes sociais oportunizam a construção de textos curtos e a compreensão sobre a possível relação da linguagem escrita com a imagética.
Educador(a), para que realize atividades de cunho pedagógico com as redes sociais em sala de aula da EJA, você precisa conhecer o funcionamento dessas redes e analisar as informações partilhadas nesse ambiente, para que possa também compreender as possibilidades pedagógicas que esses espaços oportunizam para os estudantes da EJA; afinal, as informações recebidas, postadas ou compartilhadas nas redes sociais podem não ser verídicas, as ditas fake news. Daí a importância de sua mediação, orientando os estudantes quanto à utilização e à seleção cautelosa das informações, de modo que aprendam, de forma ética e honesta, a selecionar as informações verdadeiras.
Os textos digitais normalmente são hipertextuais e possuem uma linguagem multimodal. Os hipertextos são textos que disponibilizam links de acesso a outros textos que, de algum modo e harmonicamente, complementam o texto inicial; ou seja, são textos em que o leitor pode navegar e construir seu próprio caminho de leitura e sentido. Marcuschi apresenta o conceito de hipertexto enfatizando:
O hipertexto refere-se à escritura eletrônica não sequencial e não linear, que se bifurca e permite ao leitor o acesso a um número praticamente ilimitado de outros textos a partir de escolhas locais e sucessivas, em tempo real. Assim, o leitor tem condições de definir interativamente o fluxo de sua leitura a partir de assuntos tratados no texto sem se prender a uma sequência fixa ou a tópicos estabelecidos por um autor. (Marcuschi, 2001, p. 86).
Marcuschi relaciona as formas clássicas de produção textual, caracterizando-as como:
- Um texto não-linear, pela flexibilidade das ligações permitidas;
- Um texto volátil, essencialmente virtual;
- Um texto topográfico, sem limites definidos para se desenvolver;
- Um texto fragmentário, com constantes retornos ou fugas;
- Um texto de acessibilidade ilimitada onde se acessa qualquer tipo de fonte, sem limites quanto às ligações;
- Um texto multissemiótico, faz interconexão simultânea entre a linguagem verbal e não verbal;
- Um texto interativo, havendo a interconectividade do leitor-navegador com vários autores.
Educador(a), com o uso de data show, apresente aos estudantes um texto curto com palavras e imagens sobre a cultura de paz e a não violência, e que nele haja links de acesso a informações relevantes sobre o assunto. Pausadamente, faça a leitura, reflita e discuta coletivamente sobre o assunto. Mencione o que caracteriza um hipertexto e, gradativamente, mostre como esses textos se ordenam para a compreensão ampla do texto. Explique que o leitor da cultura digital precisa desenvolver habilidades para compreender os sentidos de um texto a partir das palavras, das imagens, dos ícones e dos sons.
É desafiador realizar a leitura e a compreensão do hipertexto com os estudantes da EJA, por estarem em processo de construção de leitura e escrita. No entanto, o estudante da EJA também está conectado em rede e pode ser considerado um hiperleitor — leitor de hipertexto —, por estar, de algum modo, vendo, ouvindo, falando e teclando, ou seja, desenvolvendo habilidades de leitura para além das palavras apresentadas em um texto. São as novas condições de produção social do conhecimento.
Frente a essa teia de possibilidades, os docentes da EJA precisam estar familiarizados com o hipertexto para que possam orientar os estudantes da EJA a escolherem o melhor percurso para sua formação leitora na cibercultura.
ao interagir com hipertextos, é necessário que eles desenvolvam habilidades e competências requeridas para esse modo de enunciação digital. Como selecionar e filtrar conhecimentos, estabelecer as relações entre os diversos fragmentos . Ainda é necessário ressaltarmos que a leitura não deve ser vista como única , é necessário considerá-la em sua multiplicidade e diversidade de vozes, próprias do hipertexto (Pinheiro, 2005, p. 146).
Nessa direção, a partir da mediação do docente, os estudantes da EJA têm a oportunidade de explorar as potencialidades tecnológicas para refletir, discutir e construir caminhos para a construção de uma cultura de paz. Como observamos no ensino de português, a canção também é texto multimodal que envolve a interconexão entre letras, palavras, poesias e sons que o tornam dinâmicos, atrativos e fáceis de compreender a mensagem.
Educador(a), para explorar canções que tratam da cultura de paz, relacionando poesia e canção, sugerimos explorar a canção “Luz que me traz paz”, do cantor Maneva, disponibilizada no endereço eletrônico: https://www.youtube.com/watch?v=mrcYmAEnyL0&list=RDmrcYmAEnyL0&start_radio=1
Ainda, explorando o gênero textual canção, relacionada ao gênero textual poesia, o educador da EJA tem a oportunidade de realizar a leitura coletiva, apresentar a letra da música, os versos, estrofes e refrões.
Educador(a), há letras de músicas que tratam especificamente sobre a construção de uma cultura de paz, a exemplo da “Luz que me traz paz”, do cantor Maneva, “Imagine”, “Vivendo a vida em paz” de John Lennon, “A paz”, de Gilberto Gil e João Donato, “Paz pela paz”, de Nando Cordel, entre outros que podem ser explorados nas turmas de EJA.