2.1 Cultura de paz: a urgência da discussão da temática e as contribuições da educação matemática

Ubiratan D’Ambrósio sempre defendeu a relevância da educação para a construção de uma cultura de paz na formação dos estudantes e tinha uma perspectiva particular sobre isso. Para ele, “ Em termos muito claros e diretos: o aluno é mais importante que programas e conteúdos. Se o objetivo é Paz, a Educação é a estratégia mais importante para levar o indivíduo a estar em paz consigo mesmo e com o seu entorno social, cultural e natural e a se localizar numa realidade cósmica” (D’Ambrosio, 2011, p. 206). O autor argumentava da seguinte forma:

Milhões, durante toda a história da humanidade, têm acreditado na necessidade de se preparar para uma possível agressão, inventando meios mais “eficazes” de, em nome de defesa, agredir, o que têm causado enormes perdas materiais e morais . Seria fundamental lembrar que os interessados nesse estado de coisas justificam dizendo ser isso necessário porque o alvo da nossa bomba destruidora é um indivíduo que não professa o nosso credo religioso, que não é do nosso partido político, que não segue nosso modelo econômico de propriedade e produção, que não tem nossa cor de pele ou nossa língua, enfim, o alvo de nossa bomba destruidora é um indivíduo que é diferente. Tem sido e continua sendo esse o conceito dominante nas relações sociais e políticas: ver, no diferente, um agressor em potencial.

Em uma sociedade cada vez mais polarizada, esse argumento tem sido apresentado por detentores de poder político para tentar justificar o injustificável, como guerras; temas de relevância social são tratados com viés partidário; e ações violentas contra pessoas e o meio ambiente são relativizadas. Tratar da possibilidade de criarmos uma cultura de paz torna-se, portanto, não apenas necessário e relevante, mas urgente. Leão (2023) lembra que a violência acarreta insegurança permanente e medo, que desencadeiam reações emocionais e psicológicas que prejudicam a saúde física e mental das pessoas.

Educador(a), proponha a reflexão coletiva sobre a relação entre saúde e Cultura de Paz, a partir do vídeo: Papo Saúde - Cultura de Paz - Saúde Digital UFSC - https://www.youtube.com/watch?v=m7KNn32-rgQ

Não há, hoje, lugar que esteja livre da violência, e a escola precisa ser mais um importante espaço de formação de uma cultura de paz. “Famílias, indivíduos, crianças e adolescentes sofrem com as suas consequências. As diferentes formas em que ela se manifesta, sejam quais forem, causam destruição, corrompem a vida, interferem no comportamento individual, social e cultural” (Leão, 2023, p. 29).

Explore o material disponível no link: O que é cultura da paz segundo a Unesco? https://vocepergunta.com/library/artigo/read/231796-o-que-e-cultura-da-paz-segundo-a-unesco

Nos Módulos iniciais do Curso, trouxemos elementos teórico-metodológicos gerais voltados para o desenvolvimento da linguagem matemática e, neles, destacamos a Etnomatemática, que assume como essenciais para a formação de nossos estudantes, particularmente da EJA, a inserção de temas sociais, culturais e políticos na sala de aula. Seu principal expoente, o pesquisador Ubiratan D’Ambrosio, já em seus primeiros textos transcendia o âmbito da Matemática e trazia discussões relativas a temas gerais, como a cultura de paz. Para D’Ambrosio (2011, p. 203),

o fato de a humanidade ter construído um corpo de conhecimentos tão elaborado quanto a Matemática, é ofuscado pelo fato de a humanidade ter se distanciado de tal maneira da Paz. Na busca da Paz, não basta fazer uma boa Matemática, mas deve-se fazer uma Matemática impregnada de valores éticos, que é um conceito, para muitos, desprovido de significado.

Para ele,

“ essência dessa nova ética, que reduz a ciência e a tecnologia a suas dimensões de meros resultantes da necessidade do homem de sobreviver e de transcender sua própria existência, resume-se num comportamento de respeito e solidariedade para com o outro” (D’Ambrosio, 1997, p. 56).

Na contramão do que o autor defendia, um tipo particular de violência tem assustado e demandado medidas de diversas ordens, a começar pela educação. Trazendo a discussão para o campo da Matemática, sugerimos explorar a percepção que temos de valores numéricos relativos à violência contra a mulher no Brasil e o impacto que esses dados podem produzir em nós quando transformados em imagem.

Em 2022, a artista Fernanda Gassen desenhou, em uma parede do Instituto Ling (Porto Alegre/RS), 1.440 retângulos, correspondentes a todos os minutos de um dia (cada dia tem 24 horas; cada hora tem 60 minutos; um dia tem, portanto, 24 × 60 = 1.440 minutos). A cada dez blocos, um bloco foi pintado na cor azul (claro ou escuro); a cada sete blocos, um bloco foi colorido em laranja (Figura 1).

Figura 1 – Painel sobre a violência contra a mulher no Brasil
Figura 1 – Painel sobre a violência contra a mulher no Brasil

Fonte: Instituto Ling. Ling apresenta Fernanda Gassen. Disponível em: https://institutoling.org.br/exposicoes/ling-apresenta-fernanda-gassen

A obra de Fernanda representa, na forma de um infográfico, a violência contra as mulheres no Brasil, com base em dados de uma pesquisa de 2021 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: a cada dez minutos, uma mulher era estuprada no país. Dessas vítimas, 53% eram meninas menores de 13 anos — representadas pelos retângulos azul-claros — e 47% eram mulheres com mais de 13 anos — representadas pelos blocos em azul mais escuro. A cada sete horas, uma mulher era morta — representada pelos retângulos laranja. A imagem final retrata “as terríveis estatísticas de um país que segue falhando em proteger suas mulheres”. Munidos desses dados, torna-se impossível olhar para a obra como antes (https://fgassen.wixsite.com/fernandagassen/c%C3%B3pia-logorreia

Acompanhe o processo de produção do mural da artista no vídeo “Uma a cada dez: Obra reflete violência contra a mulher”: https://www.youtube.com/watch?v=fjEfiKfq0Z0

Educador(a), explore com sua turma os dados dos infográficos disponibilizados em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/6858-atlas-violencia-2023-infografico-v06-1.pdf Os diferentes temas do documento podem ser distribuídos para a turma (um tema para cada grupo colaborativo) para serem analisados, apresentados e discutidos coletivamente. Se possível, propor a representação dos dados de um dos temas na forma do mural da artista Fernanda Gassen, explorando mudanças de percepção quando os números se transformam em imagem.

A formação matemática de nossos estudantes pode colaborar na construção de uma cultura de paz, por meio do debate sobre a relevância desse tema em sala de aula. A transparência das informações, seu acesso e sua discussão pela sociedade são fundamentais para que as esferas políticas de diferentes níveis se mobilizem, elaborando e aprovando políticas públicas de proteção da população contra a violência. Para isso, a mobilização popular e o acompanhamento das práticas de nossos representantes nas diferentes esferas de poder são essenciais.

Educador(a), proponha a discussão coletiva acerca de como a educação e, particularmente, o trabalho com conteúdos matemáticos, por meio da discussão de dados numéricos e gráficos, podem ser relacionados à formação de uma cultura de paz.

Podem ser explorados dados nacionais gerais (https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/5999-atlasdaviolencia2025.pdf municipais (https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/9277-atlasviolencia2024retratodosmunicipiosbrasileros.pdf ou ainda por natureza do crime (https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/filtros-series do Atlas sobre a Violência no Brasil, produzidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

As diferentes formas de violência (física, mental, digital, ambiental, individual, institucional, dentre outras) atingem a todos, direta ou indiretamente, e seu enfrentamento depende de ações coletivas e individuais, dentre as quais se destaca a empatia. Leão (2023), ao citar Morin (2010), argumenta que

o compreender as perspectivas, as experiências e as necessidades do outro individuo, é possível superar preconceitos, estereótipos e divisões, promovendo a cooperação, a solidariedade e a harmonia social. Essa compreensão mútua pode ser alcançada por meio do diálogo, da escuta ativa, do respeito à diversidade social, cultural e ambiental, e o reconhecimento da igualdade de direitos e dignidade de todos os seres humanos.

Educador(a), proponha a discussão, com os estudantes organizados em grupos colaborativos, sobre o primeiro ponto destacado no texto do quadro.

uma pesquisa de opinião feita recentemente (2025) pela Genial/Quaest apontou que 29% dos entrevistados enxergavam a questão da criminalidade como o maior problema do Brasil. Essa proporção aumentou 19 pontos percentuais em pouco mais de um ano, uma vez que em dezembro de 2023, apenas 10% dos entrevistados citavam a violência. Essa aparente contradição entre a redução das taxas de homicídio (*) e o aumento da percepção do crime e de insegurança como maior problema a ser enfrentado pode ser compreendida por duas razões. Em primeiro lugar, como há muito se sabe, a prevalência de crimes e a percepção de segurança não caminham necessariamente juntas. Existem inúmeros elementos que interferem nessa relação que, entre outras questões, passa pela intensidade de como os incidentes são tratados nas mídias e redes sociais, pela localização geoespacial dos conflitos e pela maneira como as pessoas se sentem expostas aos crimes praticados. O segundo ponto diz respeito à mudança do padrão de criminalidade. Sobre esse aspecto, além da citada queda dos homicídios, em 2023 observou-se redução em quase todos os crimes contra o patrimônio praticados na rua, no comércio e nas residências, como apontado no 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Entretanto, o estelionato praticado em meios digitais aumentou de forma extraordinária nos últimos anos, alcançando quase dois milhões de registros de ocorrência, apenas em 2023, ou um golpe a cada 16 segundos.

(*) Essa referência é sobre informação do mesmo Atlas (2025, p.8): “Entre 2022 e 2023, houve redução de 2,3% na taxa de homicídio por 100 mil habitantes no país. Com isso, o Brasil atingiu o índice de 21,2, o menor dos últimos 11 anos. Em 2023, 45.747 pessoas perderam as vidas em face dos homicídios. Depois de uma estagnação nas taxas de homicídio entre 2019 e 2022, que estacionou no patamar de 21,7, voltamos timidamente à trajetória de queda iniciada em 2018”.

Além dos crimes de estelionato, praticados por meio digital, tem preocupado a sociedade outras violências praticadas nesse universo, uma vez que ainda há pouca regulamentação específica no país e, por exemplo, apenas em março de 2026 entrou em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), promulgada em 17 de setembro de 2025 (https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/Lei/L15211.htm

Todos nós precisamos ficar atentos a possíveis violações do Estatuto, pois nossas crianças e jovens são particularmente vulneráveis no ambiente virtual.

Figura 2 – O ECA Digital: objetivo central.
Figura 2 – O ECA Digital: objetivo central.

Fonte: Câmara dos Deputados. Disponível em: https://infograficos.camara.leg.br/eca-digital/

As empresas que hospedam redes sociais e perfis, muitos deles falsos, lucram milhões com discursos de ódio, parcialmente escondidos por trás do manto da “liberdade de expressão”. É importante entender que o que é crime fora da Internet também deve ser crime nela, quando o que é divulgado fere a legislação vigente e estimula a prática de ações violentas.

Educador(a), nesta atividade, a sugestão é explorar o segundo ponto destacado no texto do quadro. Proponha a realização de uma pesquisa com os estudantes — que pode ser ampliada para seu universo familiar e profissional — sobre crimes digitais. Se já foram vítimas, qual foi a natureza do crime e quais foram as providências tomadas. Sugira a organização de um questionário breve e discuta formas de representação posterior dos resultados, como uma tabela, um gráfico ou um infográfico, por exemplo.

É importante estimular o desenvolvimento de estratégias de proteção, segurança pessoal e coletiva, através da informação sobre procedimentos a adotar, em caso de violência de qualquer natureza, e quais são os órgãos especializados e como acessá-los (endereço eletrônico e número de telefone).

A Educação Matemática pode colaborar para a efetivação de uma cultura de paz, explorando contextos diversificados, nos quais os professores ajudem os estudantes a desenvolverem conhecimentos que os levem à prática da não violência.

No que se refere à operacionalização desta proposta, o educador matemático da Paz pode utilizar um pequeno tempo de sua aula para trabalhar diversas perspectivas de abordagem ancoradas no tripé: A consciência ~ O sentimento ~ O comportamento. A consciência pode trabalhar os valores, a moral e a ética. O sentimento trabalhar o emocional. E, o comportamento, o fazer e o agir em situação de conflito e violência (Leão, 2023, p. 53 – destaques do autor).

Em relação ao papel do professor que ensina conteúdos matemáticos na perspectiva da Justiça Social, este deve ter ciência da importância de promover “uma abordagem de matemática em sala de aula que não se limita às discussões meramente internas à própria matemática, mas que possa capacitar os alunos para desempenhar um papel ativo e crítico na sociedade, combatendo injustiças sociais e compreendendo como suas ações podem garantir a Paz e a dignidade humana” (Alves; Freitas; Silveira; Abreu, 2023, p. 18).

Acreditamos, como D’Ambrosio, nas implicações que seguem: “respeito → paz interior; solidariedade → paz social; cooperação → paz ambiental. A busca da paz é, então, identificada com a aceitação de uma ética maior, como a ética da diversidade, na resolução das pulsões do ser humano, o que são a sobrevivência e a transcendência do indivíduo e da espécie” (D’Ambrosio, 2016, p. 191-192).

Para promover uma cultura de paz, é importante também levar para a sala de aula notícias e fatos sobre ações positivas praticadas por pessoas e instituições, de fontes confiáveis, mas que não recebem destaque nas diversas mídias. Alguns livros podem ser utilizados como referência nessa direção: 1) O lado bom: por que os otimistas têm o poder de mudar o mundo (2025), de Sumit Paul-Choudhury (Alta Books); 2) Humanidade: uma história otimista do homem (2021), de Rutger Bregman (Crítica); e 3) Utopia para realistas: como construir um mundo melhor, de Rutger Bregman (Sextante).