2.2 Ensino de língua portuguesa e a promoção de discurso não-violento

Muitas intolerâncias passam pela linguagem, desde termos preconceituosos até textos ofensivos, sejam ou não intencionais. Por isso, conforme explica Motta (2020), é interessante refletir sobre a violência ocorrida por meio da linguagem como forma de combate ao discurso de intolerância e, consequentemente, como estratégia de promoção de uma cultura de paz.Conforme nos explica a mencionada autora (Motta, 2020), o discurso violento é preocupante, basicamente, por: a violência física vir sempre acompanhada ou precedida de ataques por meio da linguagem verbal; textos violentos, principalmente na era digital em que vivemos, ganharem força e reverberação, com grande potencial de destruição de reputações e, até mesmo, vidas; e o consenso de que a violência física deve ser erradicada, de modo que, por contiguidade, a verbal também o deve. Em suma, é preciso que compreendamos que a violência não ocorre apenas por meio de agressões ou ataques físicos, mas está também relacionada à verbalidade, ou seja, à língua escrita ou oral.

Nesse sentido, nosso intuito é apresentar uma proposta que promova reflexões sobre possíveis discursos violentos, em um sentido amplo, de forma que os estudantes da EJA os identifiquem, reconheçam e compreendam como formas de violência verbal e, consequentemente, os rechacem. Como forma de ilustração, propomos o trabalho intencional com o gênero textual canção, que poderá ser empregada também com outros textos. Socialmente, esse gênero é também conhecido ou mencionado apenas como música; entretanto, apesar de bastante usual, essa denominação é inadequada, pois, como se verá, essa é uma de suas linguagens constitutivas, além de indicar apenas uma de suas dimensões e também se referir a uma forma específica de arte.

Souza (2010) considera que a canção é um gênero multimodal principalmente decorrente da articulação entre sua materialidade verbal – conhecida popularmente como letra – e sua materialidade musical, formada por melodia, ritmo e harmonia, de modo que “ letra e música interagem entre si, convergindo em alguns casos, divergindo em outros, mas sempre em relação dialógica ” (Souza, 2010, p. 126). Outra especificidade desse gênero textual é origem artística, tornando a relação literomusical ainda mais singular.

Trata-se, portanto, de um gênero textual, mas também musical (Souza, 2010; Rocha, 2020), pois ambas as linguagens, verbal e não verbal, estão nele intimamente imbricadas, de forma que, socialmente, não há como pensá-las separadamente. Assim, a canção é, constitutivamente, um gênero literomusical. Conforme Rocha (2020, p. 179), “ a gênese da canção se pauta pela união de letra com melodia, omitir esse elo significa justamente tirar da canção o que particulariza a sua autonomia como gênero”. Por isso, não faz sentido trabalhar apenas com a letra das canções, como geralmente ocorre no ensino. Isso afeta diretamente a recepção e também a relação interpessoal dos estudantes com o objeto de ensino.

O gênero textual canção é um texto relativamente pequeno que tem como principal meio de execução a voz com ou sem acompanhamento instrumental. Estruturalmente, na versão escrita, há um título, seguido, geralmente, da indicação do cantor ou do autor; há a letra da música, que apresenta a macroestrutura de poema, composta por estrofes e versos, entre eles, um estribilho, também, conhecido como refrão. Os versos são compostos melodicamente por sílabas poéticas, que seguem uma métrica sonora, as quais seguem ou ditam o ritmo da música, e, geralmente, apresentam rimas.

Tematicamente, a canção pode tratar de diferentes assuntos, desde questões pessoais e amorosas até sociais. Por fim, estilisticamente, há a articulação, como já dito, entre linguagem verbal e musical, com predominância não exclusiva da sequência narrativa, da linguagem poética e conotativa, bem como da repetição de partes ou de todo o texto. Tanto o tema quanto o estilo também são muito influenciados pelo gênero musical específico: popular, rock, bossa nova, sertanejo... (Souza, 2010).

Veja o vídeo “L.E.I.A. Língua Portuguesa: O gênero canção..., disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BMTiN3Yhed8&t=293s

O intuito do trabalho com os gêneros textuais não é ensinar suas características, mas chamar a atenção dos estudantes para como os textos, nesse caso, as canções, apresentam essas características e, assim, pertencem a esse grupo textual. Além disso, as canções estão muito presentes em nosso cotidiano, havendo diferentes usos sociais, sendo muito usuais como entretenimento, mas não só, podendo também servir como forma de protesto, de agradecimento, de denúncia, entre tantos outros possíveis.

Outra questão é que, dada a natureza literomusical, isto é, a multimodalidade constituinte do gênero canção, trata-se de um texto que não é socialmente lido, mas escutado. Por isso, não é indicado, no processo de ensino e aprendizagem, apenas trazer as letras das canções, pois isso artificializa o uso social desse gênero textual (Rocha, 2020). Conjuntamente ao texto escrito, deve-se apresentar a dimensão sonora, isto é, a voz, a melodia, o ritmo e a harmonia. Para isso, é preciso que haja algum instrumento de reprodução de som, como rádio, computadores... ou, quando possível, cantá-la, com acompanhamento instrumental ou não. Além disso, atualmente, o acesso a canções pode ocorrer por diferentes aplicativos, alguns gratuitos e outros pagos.

Educadores, há aplicativos gratuitos disponibilizados em rede que oportunizam a criação, gravação, edição e compartilhamento de músicas através de celulares e smartphones e que oferecem recursos de colaboração integrados a uma rede global de criadores, a exemplo do BandLab, do Smule, entre outros, que podem ser baixados pela Play Store.

Para exemplificar o trabalho com o mencionado gênero e sua relação com a promoção de um discurso não-violento, sugerimos as canções: “Ai que saudade de Amélia”, de autoria de Mário Lago e Ataulfo Alves; e “Cachorrinho”, de Andinho e Kelly Key – ambas (re)gravadas por diferentes cantores e de ampla circulação social, em cada época de divulgação. A escolha delas é proposital: ocorreu por conta da convivência entre gerações distintas nas salas de EJA, de modo que os exemplos contemplem tanto canções antigas, quanto mais recentes, demonstrando que o discurso violento não é exclusividade de uma época específica. Além disso, é uma forma de trabalhar com a bagagem cultural dos estudantes e suas relações com esse gênero textual (Gonzaga; Gonçalves, 2020).

Educador(a), há um conjunto de canções com discursos violentos, que não são mais adequadas ou pertinentes de serem promovidas atualmente, mas que podem ainda ser encontradas circulando socialmente. Aqui apresentamos algumas, mas não as utilizamos para não as promover: - Rock das Aranhas (Raul Seixas); Minha Nega na Janela (Gilberto Gil e Germano Matias); Faixa Amarela (Zeca Pagodinho); Lôrraburra (Gabriel, O Pensador); Maria Chiquinha (Sandy e Júnior), Fricote (Luiz Caldas); Preto de Alma Branca (Tião Carreiro e Pardinho); Vale Tudo (Tim Maia); entre outras tantas. Veja mais exemplos no vídeo de Verônica Ferriani: https://www.instagram.com/reel/DINNUTbPBDF/

O educador pode começar realizando algumas questões para a mobilização dos estudantes e para iniciar a audição das canções, como, por exemplo: Vocês conhecem a canção “Ai, que saudade de Amélia!”? Quem será essa “Amélia”? Por que será que há saudade da Amélia? Conhecem a canção “Cachorrinho”? Por que será que ela tem esse título? Quais serão os assuntos dessas canções? Quais serão os ritmos delas? A partir das respostas, é possível antecipar possíveis sentidos que vão permear e, possivelmente, induzir a compreensão de quem está consumindo a canção. Uma das versões mais conhecidas da primeira canção é a interpretação de Nelson Gonçalves, gravada na primeira metade do século passado.

Veja o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=VZypZr0p0jQ Trata-se de um samba. A versão mais conhecida da segunda canção é a interpretação da própria autora, Kelly Key , que foi gravada nas primeiras décadas deste século e possui um estilo musical conhecido como pop brasileiro ou dance-pop. Após a audição de cada uma delas, o educador pode refletir sobre essa relação entre a letra e o ritmo, indagando os estudantes sobre quais sentidos isso gera neles. É possível discutir com eles qual canção é agradável por conta da dimensão musical, isto é, do ritmo, da harmonia e da melodia; quais sensações cada canção gera neles, pedindo que tentem explicá-las.

Educador(a), em qualquer trabalho de leitura, evite perguntas genéricas que não promovem uma reflexão aprofundada, como: Você gostou da canção? O que você achou dessa canção? Embora sejam muito comuns, essas indagações ficam muito na ordem pessoal e sem ancoragem no texto para explicar ou justificar as percepções ou considerações dos estudantes. Procure realizar questões que os motivem a explicitar suas opiniões, como: O que, na canção, lhe fez gostar ou não dela? Há algum trecho? Aponte ou retire um exemplo.

A partir dessas reflexões introdutórias, o educador deve promover a reflexão sobre a promoção de discurso violento em cada uma das canções, a partir da leitura mais minuciosa das letras:

Quadro 1 – Letras das canções.

Ai, que Saudade da Amélia!

Ataulfo Alves e Mário Lago

Nunca vi fazer tanta exigência

Nem fazer o que você me faz.

Você não sabe o que é consciência,

Não vê que eu sou um pobre rapaz!

Você só pensa em luxo e riqueza.

Tudo o que você vê, você quer!

Ai, meu Deus, que saudade da Amélia!

Aquilo sim é que era mulher!

Às vezes passava fome ao meu lado

E achava bonito não ter o que comer

Quando me via contrariado

Dizia: Meu filho, o que se há de fazer!

Amélia, não tinha a menor vaidade.

Amélia é que era mulher de verdade!

Cachorrinho

Kelly Key e Andinho

Se tem uma coisa que me deixa passada,

É gritar comigo sem eu ter feito nada!

Se tem uma coisa que eu não admito,

É gritar comigo.

Você gosta de mandar,

Você só me faz sofrer,

Você só sabe gritar

E grita sem saber.

Mas sem mim você não vive,

Sem meus cuidados, amor.

Fala baixinho comigo,

A sua dona chegou.

Vem aqui, que agora eu tô mandando!

Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá chamando!

Vem aqui, que agora eu tô mandando!

Vem, meu cachorrinho, a sua dona tá chamando!

Sit, junto!

(Oh, yeah) sentado, calado!

Sit, junto!

(Oh, yeah) sentado e calado!

Fonte: Elaborado pelos autores, a partir de Letras.mus.br. Disponível em: https://www.letras.mus.br/

Propomos que o educador indague se os estudantes identificam alguma violência verbal nessas canções. Não há nelas palavras agressivas, e esse é um aspecto a ser tratado: há, em ambas, um discurso violento, escamoteado, que se constrói e é construído por meio da linguagem verbal. Por isso, é importante a leitura atenta dos textos, pois nem tudo está explícito.

Na primeira canção, “Ai, que saudade da Amélia!”, há a construção principal de um discurso muito coerente com a percepção do papel de esposa ou companheira do início do século XX, que, historicamente, foi sendo revisto e alterado: “Uma mulher submissa, que não reclama de nada, e que apoia o marido em qualquer situação” (Brasil, 2009, s. p.). Essa construção é realizada por meio da comparação entre, aparentemente, a companheira atual e a antiga, contrapondo as atitudes de ambas, de modo que a primeira, por ter certa rebeldia e insubordinação, é desvalorizada em relação à segunda, que é mais resignada, na percepção do marido.

Aparentemente, não há um discurso violento nessa canção, por isso o educador precisará motivar a reflexão com os estudantes, de maneira que eles percebam que há uma construção estereotipada sobre a figura feminina, principalmente sobre as atitudes idealizadas para uma verdadeira esposa. Todavia, e se a mulher não corresponder a essa idealização? Quais possíveis consequências ela poderá sofrer, tanto de seus companheiros quanto da própria sociedade?

É importante, portanto, promover a reflexão de que todos devem ter seus desejos, opiniões e atitudes respeitados, como forma de garantir que a mulher não seja inferiorizada e, como é muito comum atualmente, sofra qualquer tipo de violência por não corresponder às expectativas, em sua maioria, machistas.

Educador(a), é muito importante tratar de violência contra mulheres. O vídeo “Violência doméstica e familiar contra a mulher: como identificar e pedir ajuda”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RvKKMsn0Elw&t=2s pode ser usado para ampliar essa discussão.

Por fim, vale ressaltar que não é da natureza humana, muito menos da feminina, a submissão, a inferiorização ou a resignação. Portanto, canções como essa generalizam uma construção estereotipada sobre o comportamento, principalmente feminino, que precisa ser combatido, pois, como denuncia Motta (2020), a linguagem verbal pode ser usada como forma de agressão psicológica e resultar em justificativas para agressões físicas — todas inadmissíveis em qualquer situação e sociedade.

Na segunda canção, “Cachorrinho”, por sua vez, há, inicialmente, um discurso de rebeldia ou inconformidade com agressões verbais, por meio de gritos, mas só quando não há uma justificativa, o que tornaria permissivas tais agressões quando motivadas. Justificadas ou não, não se deve esperar conformidade com quaisquer formas de agressão. Na sequência, há a apresentação de um relacionamento abusivo, em que o companheiro é descrito como constantemente autoritário e agressor. Entretanto, a companheira considera que ele não consegue dela se separar e, a partir disso, passa a agredi-lo verbalmente, tratando-o como um cachorrinho. Nesse momento, ela passa a ser também autoritária, por meio de comandos geralmente ligados ao adestramento de cães, inclusive com a presença de uma palavra em inglês, “sit”, que pode ser traduzida por “sente-se”, em português. Trata-se, perceptivelmente, de uma relação amorosa disfuncional e violenta, em que ambos os envolvidos são agressores mútuos.

Diferentemente da primeira canção, nesta o discurso violento é mais explícito, principalmente por conta da animalização do companheiro. Contudo, nem por isso é facilmente identificado, dado o fato de que a banalização da violência, como se nota na letra da canção, parece normalizar certos comportamentos e agressões ou, ainda, relativizá-los, isto é, considerá-los menores ou menos violentos. Essa banalização e relativização devem ser refletidas e questionadas, para que sejam desconstruídas pelos estudantes e também por nós, educadores, de forma que esses discursos sejam identificados e denunciados, principalmente em canções que têm o poder de criar padrões ou estereótipos de relações, papéis sociais, condutas, atitudes... (Moita Lopes, 2002).

Após essa reflexão sobre discursos violentos em canções, aproveitando ainda os mesmos textos anteriormente analisados, na sequência, sugerimos propostas para o trabalho com o ensino da língua escrita para estudantes em fase de alfabetização.